segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A morte de uma pomba

.......Ontem assisti uma pomba ser atropelada. Depois de uma descida, os carros podiam virar à esquerda e faziam-no com velocidade. Se houvesse alguma coisa na rua, sem dúvida não conseguiria se safar.
.......O motorista não percebeu e nem se importou.
.......Por sorte, ela foi jogada para perto da calçada, onde pude me aproximar e ver que estava viva. Tentava bater as asas, mexia o pescoço, revirava os pequenos olhos.
.......A cena me fez lembrar da vez que depenei galinhas. O rapaz cortava uma veia do pescoço e depois a pendurava de cabeça para baixo pelas patas. Ela ficava quieta. Esperava eu me aproximar, concentrado se faria algum som, e então batia as asas como último gesto desesperado. Manchei minha roupa aquela vez. No fim da tarde, imerso no verde e marrom do campo, o sangue era muito vermelho e escorria facilmente pela bacia de metal que colocavam embaixo.
.......Também ali, na rua, peguei minha câmera fotográfica e tentei recortar aquele último gotejar de vida. (Percebi que nessa curva havia marca de várias delas achatadas no asfalto, umas mais lavadas pela chuva, outras ainda com as tripas frescas.)
.......Vê: eu tive a sorte de ver uma pomba ser atropelada e arremessada para perto da calçada. Ali, onde poderia ser apreciada como uma concha encontrada na praia, um cristal incrustrado em rocha ordinária.
.......Aquele achado, de repente, arrebatou-me os sentidos e estabeleceu-se uma conexão estética muito forte: tudo estava concentrado nele: o tempo, a vida e, sem dúvida, a arte.
.......Dessa sensação, percebi que algo estava faltando. Quem fez aquilo? Quem me apresentou aquela morte tão significativa? Eu me bastava do meu ponto de vista?
.......O que vi foi o espectador prescindindo o ato criador, fazendo o caminho inverso, porém sem encontrar alguém na outra ponta. E isso me perturbou muito.
.......Dei-me conta, então, que algo vivo estava morrendo e que logo em seguida seria vítima de outra fruição daquelas. Mesmo com a câmera na mão, eu sabia que não era o artista. A morte se fazia, os movimentos se faziam, assim, como se fazer fosse o que era: pura fisiologia.
.......Irritado com aquela fantástica manifestação sobrenatural pus um fim ao meu tormento esmagando a cabeça da pomba com uma pisada firme. Ali eu finalmente me reconhecia e pude bater uma foto.

.......Ao contrário do que havia imaginado, minha satisfação desmanchava-se em ódio a mim mesmo a cada passo que me afastava do crime. Não haveria chuva que lavasse aquela morte da minha memória. Nem esta patética catarse.

.......Devia ter dado ouvidos a Leminski e deixado deus cuidar dos seus assuntos, que eu cuidaria dos meus.

2 comentários:

Nida Ollem disse...

Esse teu texto me remete à infância, essa criança sempre presente, quando eu tentava salvar os passarinhos feridos que encontarava por aí.
E, enquanto escrevo, lembro o que quase se apagou de mim. No início do ano, fiz o que não fazia há muito tempo: salvei mais um. Lembrar disso me deixa com vontade de escrever. Agora tenho mais um texto assando na cabeça, esperando pra sair.

:)

camissss disse...

É...haja Leminski...