segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Café da manhã

.......Ela chegou de madrugada, devia ser umas 5:30. Abri a porta, ela pediu uma camisa e deitou do meu lado. Vinha defumada e bêbada. Mesmo com muito sono, não pude deixar de beijá-la.
.......- Hum!
.......- Que foi?
.......- Um rato morto.
.......- O quê?
.......- Esse seu bafo de anjo bem dormido.
.......- Estava te esperando.
.......- Só um anjo para me fazer essa gentileza...
....... Já ia com a perna entra as dela e uma teta na mão. A outra descia alisando sua perna direita, sorrateiramente avançando para a racha. Mas, de repente, ela tirou-me dali. Tentei de novo e então disse:
.......- Talvez não seja legal ir aí porque estou pra menstruar.
.......Aquilo me excitou e voltei.
.......- Só não quero que você me chupe.
.......- Pois então guarda um pouco pro café da manhã.
.......E fui penetrando e ela gemendo seus ais e o dia raiou e fui trabalhar.
.......No final de semana seguinte, ela tocou o interfone mais cedo. Eu já dormia como era de se esperar, mas fui trazê-la para a cama.
.......Tirei suas roupas devagar, esfregando aqui, beliscando ali, um deus nos acuda de suspiros e contorções. O pau nas suas mãos finas boca adentro, o calor suando tudo, ela indo de quatro. No meio dessa lambança ouvi dizer:
.......- Vai querer passar no pão dessa vez?, pois vou untada de sangue.
.......- Porra, de novo?
.......- E o que importa? Cê gosta, então mete de uma vez!
.......Meti como pedia; os cabelos na mão para ver seu perfil de olhos fechados. A primeira estocada foi incrível, senti o sangue espirrando no meu saco, aquilo tudo parecendo uma matança trash com gritos e sussuros e tapas e muito sangue jorrando da sua boceta. Eu não conseguia deixar de imaginar o meu saco todo menstruado pingando suor e sangue, fatias de pão de forma no café da manhã, um rato enorme olhando no canto escuro.
.......Gozei, mas continuei. Por sorte ela veio em seguida, jogando-se de bruços no colchão com a cabeça pendurada para fora da cama. Rolei para o lado e dormi.
.......Acordei naquela pocilga que mais parecia um açougue, pensando na primeira foda. Sangue nem tanto, virgem talvez.
.......Ela tinha ido embora. Quando voltaremos a nos ver?, talvez daqui a duas ou três luas, já sabe do que eu gosto.
.......Era cedo. Admirei o lençol por um momento e acabei tomando o meu rumo também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pedalada Curitiba-Morretes

No dia 31/10, sábado, peguei a bicicleta e resolvi ir para Morretes. Equipei os alforjes com uma garrafa de 500ml de água, dois pacotes de bolacha, luvas, protetor solar, câmera de ar reserva, bomba de encher pneu, chave inglesa, chinelos, câmera digital e chapéu.

Pesquisei no bikemap.net um caminho para sair de Curitiba: bastava pegar a BR-116 ali pelo Jardim Botânico e ir até Quatro Barras (24 km).

Pedalar em rodovia é uma coisa fácil, mas barulhenta. Saí às 7:30 pensando ser mais tranquilo só que todo mundo fez o mesmo pois era início de feriado.

A primeira parada foi num posto de gasolina e sentei-me ao lado de um lava-ônibus onde havia sombra. Comi umas bolachinhas e logo apareceu um homem meio sujo, camisa de goleiro, bermuda de praia, boné velho e uma cara queimada e feia.
- Ô fera, sabe quantos quilômetros até a próxima cidade?
- Deve ser mais uns 5 km até Quatro Barras.
- Cê não me vê umas bolachas? Eu e os guri tamos vindo lá do Rio Grande, indo pra São Paulo. Caminhando.
- Porra.
- Cê conhece a serra dos 12? Aquela do Rastro?
- Ahm.
- A gente tava vindo pela 101 e um dos guri tem família em Xanxerê, acabamo subindo por ali e depois continuamo pela 116.
- Saíram quando?
- Hum... dia 3 de julho.
O pessoal que lavava o ônibus deu uma chiringada na gente sem querer.
- Eita, toma banho de manhã é bom, mas não assim.
- Ó, pega aí o resto do pacote. Prazer.
- Luis.
- Gil.
Apertamos as mãos e segui.

Em Quatro Barras, fui à central de informações turísticas. Andando pelo centro, vi que a cidade é ajeitada e na central descobri que pela região tem um monte de cachoeiras, fazendas, trilhas para caminhada e bicicleta. Além disso, é caminho para o morro do Anhangava, início da trilha do Itupava e a antiga Estrada da Graciosa passa por ali.

Saindo de Quatro Barras. Ao fundo a serra da Graciosa

Peguei um mapa da tal estrada, oficialmente chamada de Dom Pedro II, com todas as distâncias entre os atrativos que ela continha (pontes, grutas, riachos), num total de mais 24 km, e com o sol já batendo forte, rumei mato adentro. Mas antes parei numa boa padaria para tomar um café decente.

No início, a estrada tem um pouco de asfalto, logo alterna entre asfalto e brita das grandes (como 1a camada de pavimentação), o que dificulta muito a pedalada, e depois apenas chão batido em mais da metade do caminho.



Faltando quatro quilômetros para pegar a PR-410 (nova Graciosa), havia uma bifurcação: à direita o antigo caminho mesmo, à esquerda uma estrada como a que eu vinha. Peguei o antigo caminho que era mais fechado (àrvores tapando o sol, ufa), mas muito mais tortuoso, tanto para os lados como para cima e para baixo.

Na PR-410 começou a descida. Poucos quilômetros depois de onde entrei há um mirante. Aproveitei para tomar caldo de cana com pastel de carne e queijo. Era o almoço.

Bem empanturrado de caldo de cana, devido aos vários "choros", fui curtir a vista.

Esse é o início da descida. A vista do mirante não dá para fotografar: fica muito esbranquiçada.

Tinha um cara sentado numa moto, parado, olhando. Apoiei a bicicleta no meio-fio perto dele.
- Tá descendo?
- Aham. Primeira vez que vou de bicicleta.
- Antigamente eu vinha sempre. Ia pra Antonina; lá é muito bom.
- Quantos quilômetros depois do trevo para Morretes?
- Uns 17. Mas tem uma subidinha que o cara olha e não dá importância. Mas a cada curva a gente fica pensando "agora começa a descida" e nada. Cansa.
- E a volta? Eu não vou conseguir subir tudo isso aqui.
- Eu costumava voltar de trem. Acho que pelas 4 ele sobe pra Curitiba. ... Pô, era muito bom... Vais descer e sentir as juntas tudo doida, treme demais nesse paralelepípedo que tem aí mais pra frente.
- Hum.

Chegou um monte de gente e começaram a tirar foto com flash e gritar e falar asneira. O rapaz fez uma careta, desejou-me boa descida e se foi.

No meio da descida

Desci tranquilo, sem abusar da velocidade (25 km). No final, antes de chegar no trevo e com as mãos rangendo a cada movimento, parei numa bica, lavei o rosto e passei protetor. O resto do caminho até Morretes (7km) foi quase plano e o sol das 2 estava muito forte. Parei a 1km da cidade para tomar mais um caldo de cana. (Fico pensando se já inventaram algo melhor que isso para quando está quente)

Final da descida: lugar para se refrescar

Uma virada para trás depois que começou a reta escaldante até Morretes

Fui direto para a estação certificar-me do horário do trem. Saía às 3. Comprei passagem, fui numa lanchonete comer um misto quente e voltei para esperar (faltava meia hora). Enquanto estava sentado na escada da entrada, fritando a bunda no granito, sentou um guia de turismo ao meu lado e começou a falar do calor.

- É... está muito quente mesmo.

Conversamos sobre ecoturismo, trilhas na região e o calor. Logo ele foi coordenar a entrada dos grupos de turistas (não lembrei de perguntar porque havia uns 10 ônibus de secundaristas na cidade).

Saída da estação ferroviária de Morretes

Embarquei a bicicleta no vagão de carga. O vagão da classe econômica tinha os bancos de costas para a subida pois dava muito trabalho virar cada um (vagão). Aquilo já me fez pensar no estômago embrulhando, mas todo mundo fez as 3:30 horas de subida bem torto e feliz.

Estação Pico do Marumbi

Cheguei em casa às 19h e, depois do banho, senti-me cheio de energia. Essa coisa de ficar trabalhando no computador a semana toda, o mês todo, acaba matando a pessoa. Ainda tenho que fazer uma viagem longa desse jeito. Só não posso esquecer da coisa mais imporante que levei: o chapéu.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Na beira do rio

.......Certa vez havia um violeiro e um pescador na beira do rio. Sentados no chão de barro duro, sob uma árvore de folhinhas miúdas, ambos permaneciam em silêncio; violão atirado para o lado, caniço para o rio.
.......Como chegaram de manhazinha, já acabara o repertório e a esperança de almoço apenas revirava as idéias, pois os peixes nem fisgavam.
.......Assuntador que era, o violeiro perguntou depois de longa pausa:
.......- Cê acha que o rio tá gargarejando ou gargalhando?
.......- O quê?!
.......- É, esse barulhinho de água repicando nas pedras, esse borbulhamento que tá aí escorrendo desde que o rio nasceu...
.......- Mas e lá sei eu.
.......- Ouça bem... Se a gente fechar o olho e pensar no caniço, a água só pode estar gargalhando. Isso aqui não é rio pra se pescar, logo se vê depois da primeira hora. Mas se a gente esquece os peixes, o rio se transforma rapidinho num bando de gente emborcando garrafas cheias, a água tentando sair pelo gargalo, o ar se enfiando, fazendo todo esse de grugruglu.
.......- Hum...
.......O pescador entendeu o que o violeiro dizia, mas como pensava em outra coisa, emendou no gargarejo das garrafas uma semelhança duvidosa:
.......- E esse cacarejo, consegues ouvir?
.......- Vem do rio também?
.......- Não, acho que vem lá de casa, pois a mulher é impaciente e deve tá querendo fazer o almoço.


07/outubro/2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sinistro

.......Pelas oito horas da noite, Juca havia se perdido em alguma parte de um bairro vizinho. Não sabia muito bem o que fazer, se andava mais ou se sentava e descansava um pouco. Ele olhava os raros automóveis que passavam torcendo para que alguém o reconhecesse, porém nenhum parou.
.......Por fim, sentou-se no meio-fio e ficou olhando os bichos voarem ao redor da luz do poste. Perguntava-se se conseguiria comê-los, mas logo imaginava um monte de mariposas voando dentro da sua boca e a boca inchando com as asas batendo lá dentro.
.......Soltou um suspiro e enfiou as mãos nos bolsos.
.......Em um deles havia um fusquinha vermelho, já sem os vidros, e no outro uma tampinha de garrafa e uns tocos de giz. Tirou a tampinha e começou a jogá-la para cima como se invocando a sorte pudesse recordar como chegara ali: Mirinda retornaria para casa, fundo da tampinha ficaria pela rua.
.......Foi contando as Mirindas até que ouviu um barulho de garrafa batendo no chão. No silêncio daquele bairro desconhecido, Juquinha avistou a três quadras uma pessoa pequena ajoelhada na esquina com umas luzinhas em volta. Na frente dela, havia uma bacia e uma garrafa da qual a pessoa tomava uns goles.
.......O menino guardou a sorte acumulada e, nunca tendo visto tal brincadeira, dirigiu-se para a esquina. Enquanto caminhava furtivamente, pensava numa recomendação da mãe, mas que naquele caso, curioso como estava, respondia mentalmente que estranho a gente deixa de estranhar depois que conhece.
.......Quase perto, ouviu-se um grito de Maria!, e a moça, agora dava para ver, levantou-se num já e saiu correndo.
.......Por sorte, deixara tudo como estava, as velas acesas, a garrafa e a bacia que era um cestinho de palha enfeitado com papel de presente, flores e umas penas vermelhas.
.......Contente por não precisar contrariar a mãe, Juquinha chegou à luz das velas e contou cinco delas, uma mão cheia que havia sido o seu aniversário. Pegou um giz e começou a desenhar uma pista para o seu carrinho. Uniu os pontos onde estavam as velas formando um círculo. Depois, para não ficar chato, e ele sabia que as ruas se cruzavam, ligou as velas diretamente pelo meio. Afastando o cesto que estava no caminho Juquinha viu que escorria uma gosma vermelha. Pela primeira vez olhou direito o que havia ali dentro.
.......Uau!, foi a sua reação e levantou-se num susto. De cima percebeu que a sua cidade havia tomado a forma de uma estrela e como as outras estrelas a sua também brilhava.
.......Sentou-se contente e concluiu que havia sido um dia e tanto: perdera-se, brincara com velas, vira uma galinha morta e havia desenhado uma linda cidade em forma de estrela.
.......Logo em seguida adormeceu.
.......Depois desse grande dia, Juquinha nunca mais foi visto.

30/set/09

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma história de viajante

.......Quando Johan estava dando sua volta ao mundo à pé, encontrou apenas um problema que o chateou. Depois de esperar o inverno do Alaska para poder atravessar o estreito de Bering congelado e entrar na Rússia, o viajante se deu conta de que seu visto de turista valeria por apenas três meses. Isso até não teria sido relevante, pois acabou costurando a fronteira do imenso país, através da Mongólia, Tibé, Cazaquistão e os vários istãos que caracterizam o avanço tártaro para o ocidente, se não tivesse atrasado sua viagem em dois anos e meio.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Os ombros suportam o mundo

Carlos Drummond de Andrade (1940)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A morte de uma pomba

.......Ontem assisti uma pomba ser atropelada. Depois de uma descida, os carros podiam virar à esquerda e faziam-no com velocidade. Se houvesse alguma coisa na rua, sem dúvida não conseguiria se safar.
.......O motorista não percebeu e nem se importou.
.......Por sorte, ela foi jogada para perto da calçada, onde pude me aproximar e ver que estava viva. Tentava bater as asas, mexia o pescoço, revirava os pequenos olhos.
.......A cena me fez lembrar da vez que depenei galinhas. O rapaz cortava uma veia do pescoço e depois a pendurava de cabeça para baixo pelas patas. Ela ficava quieta. Esperava eu me aproximar, concentrado se faria algum som, e então batia as asas como último gesto desesperado. Manchei minha roupa aquela vez. No fim da tarde, imerso no verde e marrom do campo, o sangue era muito vermelho e escorria facilmente pela bacia de metal que colocavam embaixo.
.......Também ali, na rua, peguei minha câmera fotográfica e tentei recortar aquele último gotejar de vida. (Percebi que nessa curva havia marca de várias delas achatadas no asfalto, umas mais lavadas pela chuva, outras ainda com as tripas frescas.)
.......Vê: eu tive a sorte de ver uma pomba ser atropelada e arremessada para perto da calçada. Ali, onde poderia ser apreciada como uma concha encontrada na praia, um cristal incrustrado em rocha ordinária.
.......Aquele achado, de repente, arrebatou-me os sentidos e estabeleceu-se uma conexão estética muito forte: tudo estava concentrado nele: o tempo, a vida e, sem dúvida, a arte.
.......Dessa sensação, percebi que algo estava faltando. Quem fez aquilo? Quem me apresentou aquela morte tão significativa? Eu me bastava do meu ponto de vista?
.......O que vi foi o espectador prescindindo o ato criador, fazendo o caminho inverso, porém sem encontrar alguém na outra ponta. E isso me perturbou muito.
.......Dei-me conta, então, que algo vivo estava morrendo e que logo em seguida seria vítima de outra fruição daquelas. Mesmo com a câmera na mão, eu sabia que não era o artista. A morte se fazia, os movimentos se faziam, assim, como se fazer fosse o que era: pura fisiologia.
.......Irritado com aquela fantástica manifestação sobrenatural pus um fim ao meu tormento esmagando a cabeça da pomba com uma pisada firme. Ali eu finalmente me reconhecia e pude bater uma foto.

.......Ao contrário do que havia imaginado, minha satisfação desmanchava-se em ódio a mim mesmo a cada passo que me afastava do crime. Não haveria chuva que lavasse aquela morte da minha memória. Nem esta patética catarse.

.......Devia ter dado ouvidos a Leminski e deixado deus cuidar dos seus assuntos, que eu cuidaria dos meus.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Doce de Leite

Camocim - CE, 22h, fim da janta, várias pessoas.

- Amigo, tem alguma sobremesa?
- Só um minutinho.
...
- Tem doce de leite caseiro.
- Hum, é muito doce.
- Pô, caseiro...
- Não tem um queijo coalho, queijo minas para por embaixo?
- Não tem não senhor.
- Aquele queijo branco, não tem?
- Olha, só vai ter quejio ralado.

(Dá para imaginar isso de doce de leite com queijo ralado???)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A revolução de Boris

Como disse um famoso jornalista, o estilo de Boris "é muito particular, já que não se furta a emitir sua própria opinião sobre os assuntos mais chamativos e polêmicos". Por isso vamos colocá-lo para cantar neste blog.

mp3

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A decadência do Ocidente, O. Spengler

Uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se supreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio ao informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, ao qual se apega, qual planta. Uma cultura morre, quando essa alma tiver realizado a soma de suas possibilidades, sob a forma de povos, línguas, dogmas, artes, Estados, ciências, e em seguida retorna a espiritualidade primordial. Mas a sua existência viva, aquela série de grandes épocas, cujos rígidos contornos designam o progressivo arremate, é uma luta íntima, profunda, passional, com o objetivo de afirmar a idéia contra as forças do caos, no exterior, e contra o inconsciente, no interior, para onde elas se retiraram, agastadas. Não somente o artista luta contra a resistência da matéria e o aniquilamento da idéia. Todas as culturas encontram-se numa relação simbólica, quase mística, à extensão, ao espaço, dentro do qual e por meio do qual tencionam realizar-se. Alcançando o destino, realizada a idéia, a totalidade, das múltiplas possiblidades intrínsecas, com a sua projeção para fora, fossiliza-se repentinamente a cultura. Definha-se. Seu sangue coagula. Seu vigor diminui. Ela se transforma em civilização. Eis o que sentimos e depreendemos das palavras "egipticismo", "bazantinismo", "mandarinato". Talvez seja tal cultura ainda capaz de estender durante séculos e milênios seus galhos mortos ao alto, igual uma árvore gigantesca, ressequida, na mata virgem. É o que se observa na China, na Índia, no mundo islâmico. A civilização "antiga" da fase imperial erguia-se, gigantesca, com aparente viço e exuberância juvenil; mas, na realidade, o que fazia era privar de ar e de luz a jovem cultura árabe do Oriente.

Este é o sentido de todas as decadências na História, da conclusão íntima e extrema, do acabamento que, inveitavelmente, aguarda a qualquer cultura viva. A que mais nitidamente se nos depara, quanto aos seus contornos, é a "decadência da Antiguidade". Mas já podemos perceber com absoluta clareza, tanto dentro de nós como ao nosso redor, os primeiros sinais de um acontecimento perfeitamente semelhante, no que se refere à sua duração e ao seu transcurso, e que ocorrerá nos séculos iniciais do próximo milênio. Trata-se da nossa própria decadência, da "decadência do Ocidente".

(texto de 1924. Minha edição, da Zahar editores, de 1973, foi condensada por Helmut Werner)

---

O que foi o grande acontecimento artístico de Duchamp: levar um mijador para o museu?
O que é a proliferação de contos, crônicas, blogs, vídeos, músicas: a massa expressando sua tosquidade, opinando impulsivamente o que dá na sua telha feita nas coxas da ridícula burguesia?
O que é usar a própria vida, a banalidade do cotidiano - e a exaltação desse uso - em sua falta de sentido como tema para a arte, para essa atividade humana que melhor dá sentido à vida?
O que é viver a vida, apenas ela, aqui e agora, concentrando o êxtase, negando dois mil anos de paraíso futuro, ou, nos dois últimos séculos, o projeto, seja econômico ou político; em outras palavras, a Utopia?
Por que as mentes brilhantes contemporâneas, e mesmo as medíocres, apenas lapidam, modulam, reformulam, "olham por outro prisma"? Estudam e estudam apenas para perceber o que elas não querem? (não me venha dizer que não há nada novo sob o sol e bla, bla, bla)

O fim apenas dá abertura para um início.

Até lá, continuarei um rabugento* apocalíptico de vanguarda.

(*Adjetido derivado de rabugem que significa tipo de sarna de cães e porcos)