terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Atravesso o jardim

"Atravesso o jardim mordendo o cachimbo apagado, sem fazer barulho, roçando cuidadoso a noite com as mangas vazias da capa de chuva, descobrindo que os pensamentos não nascem em nós, que estão aí, em qualquer parte fora de nossas cabeças, livres e duros, e que se introduzem em nós para serem pensados e nos abandonam quando já têm o bastante, caprichosos e inalterados."

Junta-cadáveres, Juan Carlos Onetti

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Garanhão Italiano

serão três postagens em um espaço

Acompanhando a leitura do livro de Luciano Trigo, A grende Feira, visitei seu antigo blog e encontrei um vídeo-exemplo de arte contemporânea. Não é novidade que as artes plásticas caíram num vazio (e sem data de retorno), mas é sempre impressionante presenciar o ridículo dos artistas instituídos, do que é designado como grande artista contemporâneo. Digo ridículo porque é impossível não comparar com Chagall, Van Gogh, Kandinsky, etc. (Assim funciona o gosto: as novas experiências são comparadas com as boas experiências antigas.)
Além de não proporem nenhuma linguagem estética, eles não ferem nenhum setor da sociedade, muito menos essa depravação econômica, que sempre foi um bom alvo banalizador da arte moderna.

E nesse ponto da discussão mental que vinha tendo nas minhas últimas noites, aparece-me, enviado por partes muito interessadas no assunto, o link sobre um grande artista do momento. O site diz o seguinte na biografia do autor: Sylvester Stallone is an artist. In fact, many of his paintings have sold for hundreds of thousands of dollars.

Pronto. É de qualhar os ovos dum sujeito.

post-script: se bukowski ou mdme lispector pintaram, e achavam isso mais agradável que escrever, ótimo que eles tenham continuado a escrever e escondendo suas horrendades pictóricas. O garanhão só deve ter entrado no esquema (e não deveria?!) porque está velho demais para descer as colinas do Tibet matando milícias de traficantes (ver Rambo 4).

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Mais uma reflexão que tirei do livro de Luciano Trigo:

"Na França, essa polêmica ["democratização"/plurarização, mercantilização, espetacularização da arte] está em curso desde 1991. Lá o ataque à arte contemporânea se deu em três frentes:
- Essa arte não produz qualquer emoção estética, não comunica nada, nem exige talento do artista. Como não existem mais critérios de avaliação, qualquer coisa, feita por qualquer um, pode ser arte.
- A arte não tem substância, é vazia, tediosa e perde sua ambição crítica. É, em suma, um fraude, endosada apenas por aqueles que tiram algum partido do sistema de arte. Tornou-se uma mercadoria submetida à lógica especulativa e se desligou dos mais fundamentais valores humanos.
- A arte perdeu seu laço com a tradição e a História, passando a produzir novidades irrelevantes aleatoriamente, o que afasta o público - que nada entende, porque nada há para entender."

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Após outro parágrafo que achei muito interessante, encontro um critério artístico, que além de desbancar as artes plásticas contemporâneas como qualquer outro critério (seja qual for), traz de volta o passado que construiu o estado deprimente atual.

"A, por assim dizer, "aventura moderna" durou aproximadamente setenta anos. O pós-moderno já é trintão. Paradoxalmente, a produção artística do período 1980-2000 parece mais envelhecida e datada que a de qualquer artista ou movimento moderno. Este é o preço que a arte pós-moderna (ou pós-estética, ou contemporânea) paga pela sua capitulação total a uma lógica de obsolescência acelerada, ditada pelo fim da história da arte. Que artista dos últimos trinta anos tem a dimensão e a importância de um Picasso, de um Matisse - ou mesmo de um Marcel Duchamp?"

Aí está: importância comparada. Diferente de colocar obras umas ao lado das outras, fora de contexto, a importância remete ao efeito artístico da obra sobre cada sociedade.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Doze reflexões/provocações sobre a arte contemporânea

As artes plásticas, preguiçosamente chamadas de artes apenas, vêm sofrendo as violências que o cinema já se acostumou e que a literatura teima em resistir - apesar dos bestsellers. Esse caráter da literatura talvez esteja associado à própria forma de expressão: papel e letra, coisa que data aproximadamente de 3200AC, e que mudou pouco até hoje.


Doze reflexões/provocações sobre a arte contemporânea
(Luciano Trigo, A grande feira)

1. O movimento pós-moderno de integração da arte à cultura de massa é a antítese da atitude modernista de resistência à idéia da mercantilização da obra de arte. O pós-modernismo assinala a rendição incondicional da arte e de toda a produção cultural às forças do mercado neoliberal globalizado, que subordina a cultura aos interesses corporativos.

2. É evidente que, ao longo de toda a história, o artista teve que se relacionar de alguma maneira com o capital. Mas, hoje, o fenômeno se diferencia por seu alcance e por suas implicações inéditas: acabaram as brechas, nada escapa da atuação do capitalismo corporativa, ainda mais quando ele se associa ao Estado burocrático. A arte que esta aliança promove é instrumentalizada. O artista passa a atender a demandas orientadas para a maximização do lucro, a alienação política e a reprodução do sistema como um todo.

3. As grandes corporaçãoes tornaram-se os principais patrocinadores da arte, formando coleções milionárias, concedendo fundos para megaexposições nos museus etc. Tudo isso afeta não apenas a cotação dos artistas contemporâneos, mas também a sua própria produção, cada vez mais domesticada e alienante. As corporações compram barato e em quantidade, forçando em seguida a escalada da cotação de jovens artistas. É claro que continuam existindo artistas de qualidade, mas muitos acabam funcionando como inocentes úteis. Por outro lado, é natural que as corporações invistam numa arte compatível com seus valores, sua imagem e agenda.

4. Esse processo se profissionalizou, está integrado a um business plan; não se trata mais, simplesmente, de comprar peças decorativas, mas de uma séria e dispendiosa ação de marketing. Estima-se que, nos anos 1990, as vendas corporativas corresponderam a 25% dos negócios realizados no mundo da arte em Nova York. Ao associar-se à arte, as corporações estão comprando um valor simbólico que não encontram na mera publicidade paga. Daí a eficácia, por exemplo, da campanha da vodca Absolut, que torna transparente essa promiscuidade crescente entre arte e business.

5. O museu como instituição de guarda e conservação de patrimônio tem cada vez menos relevância. Mas em seu lugar surgiram, às dezenas, museus fast-food e filiais caça-níqueis de grandes grifes, com função de multiplicar as conexões da rede de produção e consumo num nível planetário - e estimular um novo e lucrativo entretenimento de massa, no qual se lançam novos produtos a cada temporada.

6. Como o mundo editorial e o mundo fonográfico, o mundo da arte se aproximou do supermercado, onde é fundamental estar exposto para ser "vendido" - e onde o preço alto é atrativo e garantia de qualidade, como nas lojas de roupas sofisticadas (que se parecem cada vez mais com galerias de arte). Por outro lado, a linguagem da publicidade se aproximou da linguagem artística.

7. A arte pós-moderna rejeita as idéias de progresso linear, bem como qualquer autoridade no juízo estético, ao mesmo tempo que pilha caprichosamente a história. Se um consenso sobre valores e crenças, o julgamento crítico perde a função. Sem um horizonte temporal no qual se inserir, a arte se atrela a uma lógica do espetáculo, e a produção artística perde a profundidade, apoiando-se nas aparências e nos impactos midiáticos instantâneos, numa série descontínua de reelaborações deliberadamente efêmeras. Como estrelas da cultura de massa, os artistas, que conseguem se inserir no circuito internacional passam a se preocupar com estratégias de marketing que os mantenham em evidência.

8. No modernismo, o movimento de aproximação entre artista e sociedade se inseria num projeto de transformação social. Hoje prevalece o imperativo capitalista de ampliar o público consumidor e reforçar gostos e valores que sustentam o sistema, através de uma rede onipresente tão ramificada que fica às vezes difícil dizer queme stá influenciando quem. Os movimentos especulativos que sempre afetaram o mercado financeiro passaram a determinar mudanças espasmódicas na arte: a obra de arte, como o dinheiro, se torna puro valor de troca. Transformada em puro capital especulativo, a arte se aproxima da condição da mais abstrata das mercadorias: o próprio dinheiro.

9. A consolidação da arte pós-moderna se process de fato com a passagem da cultura de massas para a cultura de mídias. A arte contemporânea abraça sem qualquer constrangimento a superficialidade dos reality shows.

10. Tudo isso acontece com o beneplácito das elites intelectuais, que demonstram uma receptividade acrítica sem precedentes ao que lhes é vendido como arte. Essa tolerância total acaba se confundindo com a indiferença, e a arte, em algum aspecto essencial, se torna irrelevante - ainda que economicamente, esteja cada vez mais valorizada. Só assim se entende que a obra Lullaby Spring (2002), deDamien Hirst, um prateleira de aço e vidro com 6.136 pílulas pintadas, tenha sido vendida, em 2007, por 19,1 milhões de dólares. Até novembro de 2007, essa era a obra mais cara de um artista vivo, mas foi superada por um coração de Jeff Koons, ex-marido da Cicciolina: a obra de Koons, em metal vermelho e pesando uma tonelada e meia, foi leiloada na Sotheby´s por 21,6 milhões de dólares.

11. Um problema específico do mercado da arte contemporãnea é a autenticação das obras, fundamental para a formação de preços. Como autenticar uma obra em vídeo, por exemplo, e disntigui-la de uma cópia falsificada? Ou uma obra sem original, como na arte virtual? Ou um múltiplo? Ou um obra que, por empregar material efêmero, precisa ser refeita periodicamente?

12. Esse expansão das linguagens artísticas, originalmente associada a um movimento de contestação do mercado, foi reintegrada ao sistema especulativo por meio dos mais conservadores recursos: a revalorização da assinatura e dos certificados de autenticidade, entre outros traços anacrônicos e convenções do passado, que reassociam a arte, mesmo em suas manifestações supostamente mais radicais, a uma lógica de consumo de luxo e de afirmação simbólica de uma classe social.

(blog velho do moço: http://lucianotrigo.blogspot.com)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Em algum banco...

"(...) Em algum banco desta praça, ou andando embaixo das árvores, alguém que poderia ser meu amigo esteve ou estará; alguém, homem ou mulher, mais próximo dos meus gostos do que as pessoas com as quais vivo. Não verei nunca, não saberei que respirou a umidade de uma tempestade de verão enquanto cruzava a praça de Santa María e ia mudando ociosamente, por brincadeira e desesperança, a posição dos materais que compunham seu mundo. Talvez tenha decidido aqui mesmo, passo a passo sobre o pedregulho revolto, dedicar sua vida a um só propósito ou, dá no mesmo, renunciar a todos os propósitos. Para mim é igualmente fácil compartilhar sua fé e a risada um pouco assombrada, um pouco medrosa, com que acolherá ou acolheu sua renúncia."

Juan Carlos Onetti, Junta-cadáveres (uruguayo)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Traço de geração

Da crítica de Daniel Estill sobre o livro de Fabrício Corsaletti, publicada no jornal de litaratura Rascunho de dez/09:

"(...)
Essa narrativa-lamento é um traço de geração. De uma geração que aparentemente não sabe mais o que escrever e dedica-se interminavelmente a buscar o fundo perdido de seus próprios umbigos. São narradores que ecoam romances das décadas de 50 e 60, as vozes da literatura noir, os romances beat, Bukowski, Henry Miller, Salinger e toda uma gente que, naquela época, atacava o status quo com seus livros sujos e inovadores. Atualmente, esse tipo de livro transformou-se no próprio status quo e esses mastroiannis e suas doces vidas nada mais questionam além de seu próprio vazio e falta de projetos reais de vida.
(...)"

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Café da manhã

.......Ela chegou de madrugada, devia ser umas 5:30. Abri a porta, ela pediu uma camisa e deitou do meu lado. Vinha defumada e bêbada. Mesmo com muito sono, não pude deixar de beijá-la.
.......- Hum!
.......- Que foi?
.......- Um rato morto.
.......- O quê?
.......- Esse seu bafo de anjo bem dormido.
.......- Estava te esperando.
.......- Só um anjo para me fazer essa gentileza...
....... Já ia com a perna entra as dela e uma teta na mão. A outra descia alisando sua perna direita, sorrateiramente avançando para a racha. Mas, de repente, ela tirou-me dali. Tentei de novo e então disse:
.......- Talvez não seja legal ir aí porque estou pra menstruar.
.......Aquilo me excitou e voltei.
.......- Só não quero que você me chupe.
.......- Pois então guarda um pouco pro café da manhã.
.......E fui penetrando e ela gemendo seus ais e o dia raiou e fui trabalhar.
.......No final de semana seguinte, ela tocou o interfone mais cedo. Eu já dormia como era de se esperar, mas fui trazê-la para a cama.
.......Tirei suas roupas devagar, esfregando aqui, beliscando ali, um deus nos acuda de suspiros e contorções. O pau nas suas mãos finas boca adentro, o calor suando tudo, ela indo de quatro. No meio dessa lambança ouvi dizer:
.......- Vai querer passar no pão dessa vez?, pois vou untada de sangue.
.......- Porra, de novo?
.......- E o que importa? Cê gosta, então mete de uma vez!
.......Meti como pedia; os cabelos na mão para ver seu perfil de olhos fechados. A primeira estocada foi incrível, senti o sangue espirrando no meu saco, aquilo tudo parecendo uma matança trash com gritos e sussuros e tapas e muito sangue jorrando da sua boceta. Eu não conseguia deixar de imaginar o meu saco todo menstruado pingando suor e sangue, fatias de pão de forma no café da manhã, um rato enorme olhando no canto escuro.
.......Gozei, mas continuei. Por sorte ela veio em seguida, jogando-se de bruços no colchão com a cabeça pendurada para fora da cama. Rolei para o lado e dormi.
.......Acordei naquela pocilga que mais parecia um açougue, pensando na primeira foda. Sangue nem tanto, virgem talvez.
.......Ela tinha ido embora. Quando voltaremos a nos ver?, talvez daqui a duas ou três luas, já sabe do que eu gosto.
.......Era cedo. Admirei o lençol por um momento e acabei tomando o meu rumo também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pedalada Curitiba-Morretes

No dia 31/10, sábado, peguei a bicicleta e resolvi ir para Morretes. Equipei os alforjes com uma garrafa de 500ml de água, dois pacotes de bolacha, luvas, protetor solar, câmera de ar reserva, bomba de encher pneu, chave inglesa, chinelos, câmera digital e chapéu.

Pesquisei no bikemap.net um caminho para sair de Curitiba: bastava pegar a BR-116 ali pelo Jardim Botânico e ir até Quatro Barras (24 km).

Pedalar em rodovia é uma coisa fácil, mas barulhenta. Saí às 7:30 pensando ser mais tranquilo só que todo mundo fez o mesmo pois era início de feriado.

A primeira parada foi num posto de gasolina e sentei-me ao lado de um lava-ônibus onde havia sombra. Comi umas bolachinhas e logo apareceu um homem meio sujo, camisa de goleiro, bermuda de praia, boné velho e uma cara queimada e feia.
- Ô fera, sabe quantos quilômetros até a próxima cidade?
- Deve ser mais uns 5 km até Quatro Barras.
- Cê não me vê umas bolachas? Eu e os guri tamos vindo lá do Rio Grande, indo pra São Paulo. Caminhando.
- Porra.
- Cê conhece a serra dos 12? Aquela do Rastro?
- Ahm.
- A gente tava vindo pela 101 e um dos guri tem família em Xanxerê, acabamo subindo por ali e depois continuamo pela 116.
- Saíram quando?
- Hum... dia 3 de julho.
O pessoal que lavava o ônibus deu uma chiringada na gente sem querer.
- Eita, toma banho de manhã é bom, mas não assim.
- Ó, pega aí o resto do pacote. Prazer.
- Luis.
- Gil.
Apertamos as mãos e segui.

Em Quatro Barras, fui à central de informações turísticas. Andando pelo centro, vi que a cidade é ajeitada e na central descobri que pela região tem um monte de cachoeiras, fazendas, trilhas para caminhada e bicicleta. Além disso, é caminho para o morro do Anhangava, início da trilha do Itupava e a antiga Estrada da Graciosa passa por ali.

Saindo de Quatro Barras. Ao fundo a serra da Graciosa

Peguei um mapa da tal estrada, oficialmente chamada de Dom Pedro II, com todas as distâncias entre os atrativos que ela continha (pontes, grutas, riachos), num total de mais 24 km, e com o sol já batendo forte, rumei mato adentro. Mas antes parei numa boa padaria para tomar um café decente.

No início, a estrada tem um pouco de asfalto, logo alterna entre asfalto e brita das grandes (como 1a camada de pavimentação), o que dificulta muito a pedalada, e depois apenas chão batido em mais da metade do caminho.



Faltando quatro quilômetros para pegar a PR-410 (nova Graciosa), havia uma bifurcação: à direita o antigo caminho mesmo, à esquerda uma estrada como a que eu vinha. Peguei o antigo caminho que era mais fechado (àrvores tapando o sol, ufa), mas muito mais tortuoso, tanto para os lados como para cima e para baixo.

Na PR-410 começou a descida. Poucos quilômetros depois de onde entrei há um mirante. Aproveitei para tomar caldo de cana com pastel de carne e queijo. Era o almoço.

Bem empanturrado de caldo de cana, devido aos vários "choros", fui curtir a vista.

Esse é o início da descida. A vista do mirante não dá para fotografar: fica muito esbranquiçada.

Tinha um cara sentado numa moto, parado, olhando. Apoiei a bicicleta no meio-fio perto dele.
- Tá descendo?
- Aham. Primeira vez que vou de bicicleta.
- Antigamente eu vinha sempre. Ia pra Antonina; lá é muito bom.
- Quantos quilômetros depois do trevo para Morretes?
- Uns 17. Mas tem uma subidinha que o cara olha e não dá importância. Mas a cada curva a gente fica pensando "agora começa a descida" e nada. Cansa.
- E a volta? Eu não vou conseguir subir tudo isso aqui.
- Eu costumava voltar de trem. Acho que pelas 4 ele sobe pra Curitiba. ... Pô, era muito bom... Vais descer e sentir as juntas tudo doida, treme demais nesse paralelepípedo que tem aí mais pra frente.
- Hum.

Chegou um monte de gente e começaram a tirar foto com flash e gritar e falar asneira. O rapaz fez uma careta, desejou-me boa descida e se foi.

No meio da descida

Desci tranquilo, sem abusar da velocidade (25 km). No final, antes de chegar no trevo e com as mãos rangendo a cada movimento, parei numa bica, lavei o rosto e passei protetor. O resto do caminho até Morretes (7km) foi quase plano e o sol das 2 estava muito forte. Parei a 1km da cidade para tomar mais um caldo de cana. (Fico pensando se já inventaram algo melhor que isso para quando está quente)

Final da descida: lugar para se refrescar

Uma virada para trás depois que começou a reta escaldante até Morretes

Fui direto para a estação certificar-me do horário do trem. Saía às 3. Comprei passagem, fui numa lanchonete comer um misto quente e voltei para esperar (faltava meia hora). Enquanto estava sentado na escada da entrada, fritando a bunda no granito, sentou um guia de turismo ao meu lado e começou a falar do calor.

- É... está muito quente mesmo.

Conversamos sobre ecoturismo, trilhas na região e o calor. Logo ele foi coordenar a entrada dos grupos de turistas (não lembrei de perguntar porque havia uns 10 ônibus de secundaristas na cidade).

Saída da estação ferroviária de Morretes

Embarquei a bicicleta no vagão de carga. O vagão da classe econômica tinha os bancos de costas para a subida pois dava muito trabalho virar cada um (vagão). Aquilo já me fez pensar no estômago embrulhando, mas todo mundo fez as 3:30 horas de subida bem torto e feliz.

Estação Pico do Marumbi

Cheguei em casa às 19h e, depois do banho, senti-me cheio de energia. Essa coisa de ficar trabalhando no computador a semana toda, o mês todo, acaba matando a pessoa. Ainda tenho que fazer uma viagem longa desse jeito. Só não posso esquecer da coisa mais imporante que levei: o chapéu.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Na beira do rio

.......Certa vez havia um violeiro e um pescador na beira do rio. Sentados no chão de barro duro, sob uma árvore de folhinhas miúdas, ambos permaneciam em silêncio; violão atirado para o lado, caniço para o rio.
.......Como chegaram de manhazinha, já acabara o repertório e a esperança de almoço apenas revirava as idéias, pois os peixes nem fisgavam.
.......Assuntador que era, o violeiro perguntou depois de longa pausa:
.......- Cê acha que o rio tá gargarejando ou gargalhando?
.......- O quê?!
.......- É, esse barulhinho de água repicando nas pedras, esse borbulhamento que tá aí escorrendo desde que o rio nasceu...
.......- Mas e lá sei eu.
.......- Ouça bem... Se a gente fechar o olho e pensar no caniço, a água só pode estar gargalhando. Isso aqui não é rio pra se pescar, logo se vê depois da primeira hora. Mas se a gente esquece os peixes, o rio se transforma rapidinho num bando de gente emborcando garrafas cheias, a água tentando sair pelo gargalo, o ar se enfiando, fazendo todo esse de grugruglu.
.......- Hum...
.......O pescador entendeu o que o violeiro dizia, mas como pensava em outra coisa, emendou no gargarejo das garrafas uma semelhança duvidosa:
.......- E esse cacarejo, consegues ouvir?
.......- Vem do rio também?
.......- Não, acho que vem lá de casa, pois a mulher é impaciente e deve tá querendo fazer o almoço.


07/outubro/2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sinistro

.......Pelas oito horas da noite, Juca havia se perdido em alguma parte de um bairro vizinho. Não sabia muito bem o que fazer, se andava mais ou se sentava e descansava um pouco. Ele olhava os raros automóveis que passavam torcendo para que alguém o reconhecesse, porém nenhum parou.
.......Por fim, sentou-se no meio-fio e ficou olhando os bichos voarem ao redor da luz do poste. Perguntava-se se conseguiria comê-los, mas logo imaginava um monte de mariposas voando dentro da sua boca e a boca inchando com as asas batendo lá dentro.
.......Soltou um suspiro e enfiou as mãos nos bolsos.
.......Em um deles havia um fusquinha vermelho, já sem os vidros, e no outro uma tampinha de garrafa e uns tocos de giz. Tirou a tampinha e começou a jogá-la para cima como se invocando a sorte pudesse recordar como chegara ali: Mirinda retornaria para casa, fundo da tampinha ficaria pela rua.
.......Foi contando as Mirindas até que ouviu um barulho de garrafa batendo no chão. No silêncio daquele bairro desconhecido, Juquinha avistou a três quadras uma pessoa pequena ajoelhada na esquina com umas luzinhas em volta. Na frente dela, havia uma bacia e uma garrafa da qual a pessoa tomava uns goles.
.......O menino guardou a sorte acumulada e, nunca tendo visto tal brincadeira, dirigiu-se para a esquina. Enquanto caminhava furtivamente, pensava numa recomendação da mãe, mas que naquele caso, curioso como estava, respondia mentalmente que estranho a gente deixa de estranhar depois que conhece.
.......Quase perto, ouviu-se um grito de Maria!, e a moça, agora dava para ver, levantou-se num já e saiu correndo.
.......Por sorte, deixara tudo como estava, as velas acesas, a garrafa e a bacia que era um cestinho de palha enfeitado com papel de presente, flores e umas penas vermelhas.
.......Contente por não precisar contrariar a mãe, Juquinha chegou à luz das velas e contou cinco delas, uma mão cheia que havia sido o seu aniversário. Pegou um giz e começou a desenhar uma pista para o seu carrinho. Uniu os pontos onde estavam as velas formando um círculo. Depois, para não ficar chato, e ele sabia que as ruas se cruzavam, ligou as velas diretamente pelo meio. Afastando o cesto que estava no caminho Juquinha viu que escorria uma gosma vermelha. Pela primeira vez olhou direito o que havia ali dentro.
.......Uau!, foi a sua reação e levantou-se num susto. De cima percebeu que a sua cidade havia tomado a forma de uma estrela e como as outras estrelas a sua também brilhava.
.......Sentou-se contente e concluiu que havia sido um dia e tanto: perdera-se, brincara com velas, vira uma galinha morta e havia desenhado uma linda cidade em forma de estrela.
.......Logo em seguida adormeceu.
.......Depois desse grande dia, Juquinha nunca mais foi visto.

30/set/09

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma história de viajante

.......Quando Johan estava dando sua volta ao mundo à pé, encontrou apenas um problema que o chateou. Depois de esperar o inverno do Alaska para poder atravessar o estreito de Bering congelado e entrar na Rússia, o viajante se deu conta de que seu visto de turista valeria por apenas três meses. Isso até não teria sido relevante, pois acabou costurando a fronteira do imenso país, através da Mongólia, Tibé, Cazaquistão e os vários istãos que caracterizam o avanço tártaro para o ocidente, se não tivesse atrasado sua viagem em dois anos e meio.