Esta foi minha primeira viagem de bicicleta a qual não conhecia nada do caminho. Já havia passado pela Rodovia do Café (BR-277), mas pedalando é outra história. Ainda mais quando temos que subir uns 10km de serra com os alforjes carregados!
O objetivo dessa viagem era conhecer o que restou da antiga Colônia Cecília, fundada por anarquistas italianos em 1890 (
wiki). Sabíamos que não havia nada além de algumas fazendas de descendentes e que o espírito da empreitada havia morrido em 1894, data oficial da sua dissolução, porém era um ato simbólico e um teste dos equipamentos de viagem.
Logo após a subida da serra, eu e Luísa passamos o pedágio e estacionamos num ponto de ônibus para almoçar. Havíamos levado bolo de banana (feito com casca e sem açúcar), pão integral (sem sal e sem açúcar), aipim e ovos cozidos, miojo, atum, laranjas, maçãs e bananas e água.

Até o momento que voltamos para a BR-277, no entroncamento que leva de um lado a Ponta Grossa e de outro a Palmeira, o trânsito era contínuo, mas não notávamos. Somente quando pegamos a rodovia para Palmeira é que tudo ficou silencioso e tranquilo. Mesmo com a carga que levava e os vários quilômetros já percorridos, aquilo era um verdadeiro passeio.

Antes de chegar na cidade, resolvemos parar num lugar chamado Recanto dos Papagaios. É uma estância pública, com churrasqueiras, mesas, parquinhos e um tanque enorme com água de rio. Um outro rio passa por baixo da antiga ponte de pedra que, segundo o caseiro do local, foi cortada a marretadas na época dos jesuítas (provavelmente por índios). O lugar era perfeito para descansar, e dava para acampar.



O tempo não podia ter sido melhor também: friozinho pela manhã, nuvens e sol durante o dia e bons sacos de dormir para a noite.
O Recanto dos Papagaios fica a uns 20km de Palmeira. No dia seguinte, saímos não muito cedo e almoçamos na praça da Igreja Matriz. Como era domingo no meio do feriado, a cidade estava deserta. A central de informações turísticas, que funciona na antiga estação ferroviária, estava fechada e ninguém sabia nos explicar o que queríamos.
Compramos salada num restaurante, carne de porco assada na entrada dum supermercado e botamos miojo para cozinhar no fogareiro, sentados à sombra num banco da praça.
De tarde pegamos a PR-151 em direção à Colônia. Passados uns 10km esbarramos com um CTG (km 386) cheio de escoteiros. Pensei: é aí mesmo que vamos acampar tranquilos. Falamos com o caseiro e depois de muita desconfiança e má vontade dele e um discurso lamuriento meu, disse para voltarmos mais tarde quando não tivesse mais ninguém, que poderíamos dormir num galpão. Só não foi perfeito porque tivemos que levar toda a tralha ida e volta.
Mais uns quilômetros e encontramos uma placa na beira da estrada: "Caminhos de Cecília" (o último "a" dentro de um círculo). Sítio tal para lá, sítio tãrãrã pra cá. Fomos para o mais perto e aí começou a estrada de terra.



Chegamos a um tal Sítio do Minguinho, parte do caminho "anarquista". Estávamos bastante contentes de ter encontrado algo da Colônia. Mas logo que ficamos de frente para o portão fechado demos de cara com o absurdo: uma placa dizendo "visitas agendas" e dois telefones. Escalei o portão e notei que devia haver gente pois estava tocando Raul Seixas lá para baixo e as casas estavam abertas. Gritei e bati palmas por uns 15 minutos, até que apareceu um rapaz.
- Daí cara, gostaríamos de conhecer a fazenda. Vimos as placas do "caminho" e esse sítio estava indicado lá.
- Puts, tem que agendar a visita. Eu só vim passar o final de semana. O dono não está.
- Olha velho, nós viemos de Curitiba de bicicleta para conhecer o que sobrou da Colônia e não tínhamos como agendar.
- Não posso fazer nada. Senão a coisa pega pro meu lado, saca? Estão mesmo de bicicleta?
Durante toda a nossa conversa, resumida como está acima, eu estive pendurado no portão só com a cabeça aparecendo.
- Velho, é só abrir esse portão e ver.
Nem assim ele abriu!
- Não rola. É uma pena.
Depois disso, o ânimo pela Colônia desapareceu. De anarquista, nada havia sobrevivido. Mas como estávamos ali, resolvemos ir até a Colônia Santa Bárbara, local de colonização polonesa e que competia com os anarquistas, ignorando-lhes qualquer auxílio.
Fomos até o centro, a igreja católica da vila. Segundo as indicações das pessoas que encontramos pela estrada de chão, ficava logo após um bar. Desde que saí de Curitiba, queria trazer um queijo e um salame desses coloniais. O tal bar deveria ser o lugar certo, já que seria nosso ponto final.
Cumprimentei o pessoal na entrada e perguntei:
- Tem suco?
- Tem sim. Tenho Tampico e de latinha.
- Não, não. Natural.
- Ah, tem esse aqui: Ades. Tá vendo escrito aqui: contém suco natural.
- Hum... (injetando dose de paciência). Não. Tem queijo?
- Não.
- Salame?
- Não.
Puta merda! O cara viaja prum fim de mundo poeirento e só encontra coca-cola e xitus?! Maldita globalização de merda.
Tomamos um chá ao lado da igreja, descansamos e voltamos pelo mesmo caminho.

No CTG, pudemos tomar um bom banho e jantar em uma mesa.

Teve duas coisas que percebi nesta viagem:
- A cidade e os aglomerados humanos são sujos por essência. Desmatar, aplainar, construir superfícies planas, cobrir o solo com asfalto e cimento, pintar as coisas de branco, em suma, organizar o espaço de forma mais artificial possível gera (ou mostra) a imundície. Depois de pedalar durante horas num ambiente colorido e multiforme, voltar para a cidade pela periferia (não há outra entrada para uma cidade), dá uma sensação deprimente, com todo o barulho, o lixo, a fumaça e a cor cinza.
- Os morros, que numa viagem de carro parecem impossíveis para uma bicicleta, não são assim tão difíceis.